Um novo senhor é sempre severo
(Èsquilo)
Loraine Slomp Giron
Roberto Radünz
Alguns temas clássicos da
historiografia brasileira ainda merecem atenção dos historiadores. Nesse rol
estão abordagens em torno da industrialização no Brasil; a questão dos
movimentos operários e sociais, e a questão da escravidão. Se esses temas eram
candentes nos anos 50 a 80, numa perspectiva notadamente marxista, nos períodos
seguintes eles passaram a ser tratados, a partir de novas abordagens teóricas e
metodológicas. Essa pluralização das análises responde a dois fenômenos: de um
lado a influência de novos paradigmas para a
história e, de outro, a proliferação dos programas de pós-graduação e
dos centros de pesquisa, que passaram e dar visibilidade a novas fontes
documentais.
No Rio
Grande do Sul, o tema escravidão foi e continua sendo trabalhado por
pesquisadores que problematizam a questão buscando novos olhares para o
passado. Na esteira desse processo, novos enfoques têm buscado aproximar
grandes temas da historiografia gaúcha com o da escravidão e da colonização
europeia do século XIX. São representativos desse movimento os esforços de
pesquisa relativos a essa aproximação em
universidades, em áreas tradicionais da colonização alemã e italiana. Não se
trata de uma exaustão do tema imigração e colonização, mas uma tentativa de
ampliar as abordagens para além dos limites da antiga Região Colonial Italiana.
Sujeitos históricos distanciados, como colonos e escravos, pelas matrizes
explicativas da historiografia gaúcha, recentemente aparecem juntos numa mesma
tentativa de abordar a história do Brasil meridional.
A presença
escrava em áreas de colonização, ou seja, nas regiões de terras devolutas,
segundo o entendimento oficial do século XIX, não é expressivo. As razões são
conhecidas – proibições oficiais após 1850. No entanto não se pode negar a
presença negra em áreas de colonização
nem mesmo que descendentes de alemães e italianos tivessem escravos.
O escravo sempre nutriu
o desejo de encontrar a liberdade. Essa liberdade tardou a vir na maioria dos
casos, forçando os cativos a buscarem formas de se libertar das correntes da
escravidão. A liberdade, acenada pelos senhores quando substituídos na guerra,
muitas vezes ficou em promessa não cumprida. O primeiro caminho de fato, na
busca de liberdade, foi o da resistência nos quilombos. Nas regiões menos
habitadas, como a da Serra e em suas
encostas, vários quilombos foram organizados aproveitando-se do meio natural,
marcado pela mata e pelo isolamento. A
situação muda com a abolição, quando os ex-escravos rumam à liberdade buscando
espaços de trabalhos nas fazendas, como diaristas; nas cidades, em obras
públicas ou em outras atividades que lhes pudessem garantir minimamente a
sobrevivência. Essa apresentação integra o projeto Negros na Serra, desenvolvido na Universidade de Caxias do
Sul. O objetivo dessa comunicação é analisar em primeiro lugar o caminho
dos escravos rumo aos quilombos e a trajetória dos libertos na
Serra gaúcha.
QUILOMBO: PRIMEIRO CAMINHO
Eu não consentiria em trocar minha miséria por
tua escravidão
(Ésquilo)
O primeiro caminho dos
escravos no Brasil rumo à liberdade foi o quilombo. No Rio Grande do Sul, formaram-se
muitos núcleos de resistência, principalmente nas regiões mais isoladas da
Serra e em sua encosta. Marcas desse
primeiro caminho à liberdade continuam existindo. Segundo informa a Federação das Associações das Comunidades
Quilombolas do Rio Grande do Sul,
existem mais de 130 comunidades quilombolas em território gaúcho, mas
com outro caráter e outro sentido.[1]
A manutenção de tais
associações representa uma permanência que merece ser refletida. Elas se
concentram, segundo a mesma fonte, no litoral rio-grandense do sul (municípios:
São José do Norte, Mostardas, Tavares e Palmares do Sul); na região central
(municípios: Restinga Seca, Formigueiro e entorno), e na Serra do Sudeste, a
oeste da Laguna dos Patos. A região metropolitana de Porto Alegre abriga pelo
menos seis quilombos urbanos, ou seja, as regiões onde o número de escravos foi maior.
Duas perguntas básicas
acompanham esta reflexão: Quem eram os quilombolas? Onde eles se
localizavam?
De forma geral, os moradores dos quilombos tinham
duas origens: os escravos das fazendas e os soldados desertores das forças militares, sejam
regionais, sejam imperiais. Weimer (1994, p.41) ao tratar da escravidão
no Rio Grande do Sul, aponta para o aumento extraordinário da fuga dos escravos
na Província após 1850, tanto urbanos como rurais. O aumento de 60% nas fugas,
na segunda metade do século XIX,
constitui um indício de que os escravos conheciam seus direitos; que
começavam a ser reconhecidos a partir da proibição do tráfico. Os escravos
buscaram os quilombos como forma de resistência e de liberdade.
Segundo Moura (1992,
p.34), havia sete quilombos no Rio Grande do Sul, que seriam os do negro Lúcio,
situado na ilha dos Marinheiros (Guaiba); o do Arroio (em Arroio dos Ratos); o
da Serra de Tapes; o de Manuel Padeiro; o de Rio Pardo; o da Serra do Distrito
de Couto; o de Montenegro. Na historiografia e na documentação levantada ao
longo da pesquisa, constatou-se que essas concentrações eram bem mais numerosas.
Há indícios inclusive de que, quando os quilombos deixaram de existir, seus
nomes foram guardados na memória dos habitantes e na toponímia da região -
sinais evidentes de sua importância.
Muitos dos antigos
quilombos foram abandonados por total impossibilidade de sobreviverem nessa
situação. Exemplo disso, na região serrana, o “Morro dos Baianos, Cerro dos
Baianos, Quilombo dos Baianinhos ou ainda Morro do Céu, como é conhecido
atualmente, trata-se de uma montanha de origem
basáltica com altitude de
530 metros aproximadamente, que se
localiza em Cotiporã”. No início do século XX, viviam da agricultura cerca de
vinte famílias provenientes da Bahia. Seu líder era o” patriarca Ezequiel
Gonçalves da Cruz, conhecido como “o velho perna de pau”, casado com Angélica Gonçalves da Cruz.
Tiveram sete filhos: Antônio, José, Albino, Olívio, Ezequiel, Angélica e
Maria”. (MINOSSO, 2007, p. 24 - 26 )
Malvisto pelo povo da região, o grupo se dispersou, não existindo
remanescentes de sua passagem.
Outro quilombo parece
ter existido nas proximidades da antiga fazenda da Pratinha, em Nova Prata, nas
terras da sesmaria de Placidina Vieira de Araújo, grande proprietária da
região. Reconhecido como comunidade quilombola, ainda “moram no local cinco
famílias descendentes do casal Paula
Gonçalves dos Santos e de Pedro Gonçalves dos Santos”.(MINOSSO, 2007, p.
24). Paulina era natural de Guaporé, negando ser originária do
grupo do Morro dos Baianos. Em 1999, ela conseguiu o registro de 12,5 hectares do lote 17 da Fazenda da Pratinha, pertencentes
ao Estado do Rio Grande do Sul. Apesar de negar o parentesco ao casar com Pedro
Gonçalves dos Santos, ligou-se ao grupo dos “baianos”, visto que o pai de
seu marido, Luis Neves, era conhecido como Luis Baiano.
Um quilombo citado por
Weimer (2008, p.55 ) chamado São Roque,
também existiu na Serra, tendo sido formado por escravos fugidos das fazendas
serranas dos Fogaça, Nunes e Monteiro.
Em Criúva pertencente antigamente ao Município de São Francisco de Paula
(atual distrito de Caxias do Sul), há um
local chamado Quilombo, onde outrora
viviam negros, mas na região deles já não restam descendentes. Em pesquisa
realizada em 2005, encontraram-se apenas lembranças da existência de um grupo
de negros que se dispersou. A última sobrevivente que permanecera no local
havia falecido no ano anterior, com 103 anos.
Alguns quilombos se mantiveram, entre eles o da Mormaça,
situado ao norte do Estado, comunidade negra formada por 18 famílias. O grupo
vive na região há cerca de 150 anos, em propriedade de 15 hectares, comprada
por uma ex-escrava com nome de Mormaça. O grupo vive da agricultura, cercado
por colonos de origem italiana das colônias de Araújo e Miranda, com os quais
estabelece relações difíceis.
Registros bem mais
antigos dão conta da existência de quilombos na região serrana e de como os
proprietários agiram, no sentido de capturar os escravos fugitivos. Alves
(2010) afirma que em 1843 foi feita solicitação à Câmara de Vereadores de Santo
Antônio da Patrulha no sentido de
designar de um capitão de mato
por proprietários de São Francisco de Paula, região dos Campos de Cima da Serra. Segundo Alves nova
solicitação foi feita em 1845 quando
“Compareceu nesta Câmara José Cardoso de Oliveira, Capitão do Mato do Distrito
de São Francisco de Paula de Cima da Serra ,pedindo que lhe passa se nova
provisão visto a que tem estar findo o prazo por que foi assinada. Deliberou-se
que se lhe passa se nova Provisão (ALVES, 2010, p. 62).
Segundo a mesma fonte,
outra solicitação foi encaminhada em 1850, sendo então nomeado Capitão do Mato
Antônio Correia dos Santos, bem como soldados não pertencentes ao serviço ativo
da Guarda Nacional, para auxiliá-lo na captura de escravos fugidos. Tais
nomeações são sinais da existência de número apreciável de escravos fugidos e
boa era a remuneração que os perseguidores recebiam pela capturas realizadas.
O FUROR DA LIBERDADE
Não foi
uma ameaça, apenas: a terra põe-se tremer..
O soturno ronco já se faz ouvir.
(Èsquilo0
Na
época da abolição no Brasil, ao que tudo indica havia cerca de 800 mil escravos
. Em São Paulo, segundo Florestan Fernandes ,
haveria 397.131 negros e mestiços, que representariam cerca de 28,6% da população paulista.
Contudo, esta população também tendia
diminuir uma vez que as imigrações européias, alteraram a composição da
população. Grande parte dessas pessoas vivia na zona rural onde estavam 90% dos
paulistas. Ex-escravos, imigrantes e demais brasileiros engrossavam o contínuo
fluxo migratório da zona rural em direção à cidade, criando intensa teria de relações sociais. (ANDREWS, 1998, p. 93-98)
O número de escravos diminuiu de forma gradativa , em parte foi devido à
guerras platinas em parte devido ao
aumento das fugas em massa dos escravos após 1850 . ”Ocorreu o incremento de
60% nas fugas em relação há 15 anos antes, talvez por consequência da
guerra”(WEIMER,1994 p.41)
No Rio Grande do Sul o número de escravos
reduziu com o tempo, após 1870 quando a exportação gaúcha de escravos se torna a
maior do que a do restante do Brasil e a tendência é de redução no seu número. Em 1872, os resultados do
Censo, excluídos os habitantes de quatro paróquias, davam ao Rio Grande do Sul
uma população de 434.813 almas. Os pretos constituíam 18,28% e os pardos 16,32
% e os brancos 59,43% da população, ou seja, haveria ainda na Província cerca
de 80 mil escravos.
A
substituição de mão-de-obra escrava pela livre, determinadas pelas leis que
terminaram de forma gradativa com a escravidão contribuiu para acelerar a vinda
de colonos estrangeiros, indispensáveis para garantir a produção agrícola
regional, o que contribuiu para o aumento da população branca. Dessa forma, em
pouco mais de 90 anos, o percentual da população negra baixou de 50 % à pouco
menos de 20% do total da população. No censo de 1890, a população do Estado
dobrara, tinha 897.455 habitantes, distribuídos em 63 municípios, sendo que,
destes, 459.418 eram homens e 438.337 mulheres. “Ao fim do império, a
distribuição percentual da população era a seguinte: brancos 70,17%; pretos
8,68%; caboclos 5,35% e mestiços 15,80%.” (Diretoria de estatística, 1908, p.81)
Se for calculado o número de negros e
mestiços recenseados após a abolição o número de escravos existentes no RS se aproximaria dos 25 mil . Mas ainda
mais nebuloso que o número de
escravos libertos no Rio Grande
do Sul é o dos escravos que restaram nos
campos da Serra no mesmo período , mas
ao que tudo indica pode se aproximar de
2 ,5 mil .
Para os dias de hoje o
número de escravos deixados sem auxílio pode parecer pequeno, mas na época um
exército de 800 mil desabrigados era apreciável. A questão para o governo era
de como ocupar tais pessoas num mundo eminentemente rural. O governo brasileiro decidiu pelo mais fácil,
ou seja, não fazer nada. O mesmo propósito seguiu o governo estadual.
TRABALHO OU
CONTRAVENÇÃO?
Eis como podemos ferir àqueles que no
maltrataram
Ésquilo
Não é possível determinar com certeza o aconteceu em 1888 com os
escravos libertos do Brasil, no Rio
Grande ou na Serra. Há mais hipóteses do que certezas. Os indícios podem ser
encontrados nas memórias, nos processos judiciais, nas noticias de jornais, e
esses levam a crer que houve uma hecatombe social, segundo a quais antigos
escravos corriam das fazendas em busca das cidades em busca de sobrevivência
causando desordens e crimes. A debandada de escravos tornou-se um problema
nacional que repercutiu até no Parlamento Brasileiro em geral avesso às
questões sociais, que registra em seus Anais que
Os
escravos fugiram em massa, prejudicando não só os grandes interesses
econômicos, mas também interesses de segurança pública: houve mortes, houve
ferimentos, houve invasão de localidades, houve o terror derramado por todas as
famílias, e aquela importante província durante muitos meses permaneceu no
terror mais aflitivo. Felizmente os proprietários de São Paulo, compreenderam
que, diante da inação da Força Pública, melhor seria capitularem perante a
desordem, e deram liberdade aos escravos.(Internet)
Os negros apesar da diferença de conceito de trabalho que os africanos
tinham em relação a dos europeus buscaram o trabalho, como bem destaca Costa
A idéia de que o negro não
trabalha ou de que não tem organização perpassa
a cultura italiana como comprova Bernardi(1937) em Nanetto Pipetta que retrata
a vida e o pensar dos primeiros imigrantes italianos. A situação de escravidão
tornou o negro sujeito a outra experiência cultural para a qual o conceito de
trabalho e de economia difere do italiano. (COSTA,1982, p.108)
Muitos foram os trabalhos realizados pelos negros na Serra após a
abolição. Para a maior parte dos escravos que viviam nas fazendas o caminho
parece ter sido o mesmo em todas as regiões, ou seja, a debandada em direção às cidades
Grande parte dos
libertos, depois de perambular por estradas e baldios, dirigiu-se às grandes
cidades: Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Lá, ergueram os chamados bairros
africanos, origem das favelas modernas. Trocaram a senzala pelos casebres.
Apesar da impossibilidade de plantar, acharam ali um meio social menos hostil,
mesmo que ainda miserável “(Internet).
Se antes da abolição o caminho da liberdade era a contravenção
representada pelo quilombo, após a abolição outros rumos poderiam ser
traçados. Na busca de novos caminhos não
puderam contar com o apoio governamental ou privado, já que as associações
abolicionistas deixaram de atuar após a sua libertação oficial. Deixados à sua
própria sorte os recém libertos buscaram dois grandes rumos: o do trabalho e o
da contravenção. Segundo os casos encontrados na região continuaram em economia
de subsistência, na qual já estavam envolvidos antes da liberdade.
O caminho começava no
lugar onde viveram aprisionados. Os que
viviam e atuavam nas cidades, em vez de trabalharem para os donos como
vendedores ambulantes ou alugados por eles para serviços variados devem ter
permanecido na cidade, sua presença é atestada nos jornais da época. O mesmo
parece ter ocorrido com os escravos que prestavam que trabalhavam nas casas de
seus donos na zona urbana ou na zona rural, podem ter se mantido as mesmas
atividades, porém na condição de trabalhadores livres.
Diversa foi à direção
tomada pelos escravos que viviam na zona rural. Pelo número de quilombos
registrados na região fica evidente que muitos deles lá permaneceram, mudando
sua condição de escravos fugidos para homens
livres
Outros trocaram a miséria da senzala pela dos
casebres. Várias são as fotos do inicio
da década de 1890 que revelam as péssimas condições de vida do ex escravos. O mesmo ocorreu na região da Serra do nordeste gaúcho.
Mas nem todos os escravos deixaram as fazendas alguns se instalaram em seus
limites, outros receberam terras de seus donos Segundo Alves
O Capitão Narciso José Pacheco, tinha um filho
(ilegítimo) havido com uma escrava, de nome José de Freitas Noronha. Com a
morte de Narciso, Manoel Machado Pacheco reconheceu o neto que recebeu de
herança uma parte da fazenda. Assim, Noronha, tornou-se o primeiro descendente
de escravo com propriedade na região. ( ALVES, 2010,p55)
Poucos foram os casos de
filhos de senhores e de escrava que foram reconhecidos como filhos. Ainda menor
foi o número daqueles que receberam terras, nem todos os filhos bastardos de
fazendeiros tiveram a sorte de Noronha. A maioria dos escravos buscou trabalho em
fazendas vizinhas oferecendo-se como jornaleiros. Outros procuraram vilas
próximas.
Muitos chegaram a lugares
improváveis as antigas colônias de Alfredo Chaves e Caxias. Ao se instalarem
próximos a essas n povoações agruparam-se em regiões altas desabitadas em
locais próximos ao centro, em geral em morros desabitados. As favelas assim
formadas recebiam o nome de África. Nelas passaram a viver os antigos escravos
provenientes das fazendas de criação de gado situadas nas proximidades das
antigas colônias povoadas por imigrantes europeus As vilas coloniais não eram
estranhas aos ex escravos, muitos deles haviam sido tropeiros das fazendas e
conheciam a região.
Os tropeiros muitas
vezes viajavam sozinhos, sem donos ou capatazes seguindo a antiga estrada Provincial, aberta na década
de 1870 ,que ligava os Campos de Cima da Serra ao rio Caí no Porto de
Guimarães; ou a Estrada Buarque de Macedo que ligava região dos campos com o vale do Cai em São João de
Montenegro, passando por Alfredo Chaves,
Dona Isabel e Conde d”Eu. Tais caminhos mais tarde, se tornaram a rota dos imigrantes.Com a demarcação e o povoamento das colônias mais caminhos
foram abertos por eles passavam mais
tropeiros que em geral, eram antigos
escravos de a muito acostumados a essa
atividade . Muitos foram os tropeiros que se estabeleceram nas antigas colônias.
Em Caxias
o principal agrupamento de negros ficava situado no Burgo. Onde vivem ainda
muitos de seus descendentes. Outro foi o Buraco Quente e a Zona do Cemitério ,situados próximo do
centro atual da cidade. Em Bento
Gonçalves os negros se reuniram na favela chamada Divinéia , próxima da Cidade
Alta
Em busca de trabalho alguns ex escravos entraram para a Brigada Militar do Rio Grande do Sul , foi
fundada em 1837, em plena guerra civil Farroupilha , e que desde o seu inicio
os aceitou.Assim muitos deles entraram naquela corporação.Alguns
foram enviados para a Serra.
A força era pequena e, portanto pequeno também foi pequeno o número de brigadianos que se
fixaram na região.
Além de tropeiros e de
soldados os antigos escravos se tornaram como trabalhadores braçais, ajudaram
na abertura de estradas e, mais tarde na construção da estrada de ferro . Nas
fotos do período da abertura da ferrovia grande número de negros esta presente,
da mesma maneira nos serviços públicos do inicio do século XX.
A estrada de ferro
prometida em 1875, nem o fim do Império, nem o inicio da República resolveu o
grave problema dos transportes das antigas colônias. O projeto só saiu do papel
na primeira década do século XX
.A estrada de ferro chegou a Caxias em 1910, em Bento Gonçalves em 1919. Muitos
trabalhadores negros chegaram à serra com a estrada de ferro assentando
dormentes e explodindo rochas e alguns
nela passaram a residir.Sem esquecer que era expressivo o número de negros que
trabalhavam como empregados da ferrovia,tanto na condição de guarda-chaves,
como de condutores.
Nem todos os antigos escravos entraram para o
mundo do trabalho, alguns buscaram o da
contravenção Cardoso(2007, p.60) ao analisar a escravidão no
vale do Cai ,no lugar chamado de Rincão do Cascalho relata a ocorrência de um crime ,no qual um escravo
matou com um tiro um mascate
italiano confundindo-o com o negociante
que pretendia assassinar,no caso
dono da casa de negocio.Tal ação revela que algumas vezes os escravos
andavam armados e armavam vinganças contra brancos que na eram relacionados
diretamente a sua condição de escravos.,tal condição deveria ser do
conhecimento de seus proprietários
.Weimer apresenta dados que revelam que as regiões de imigração alemã e
italiana foram as principais consumidoras do gado roubado de São Francisco de
Paula, atividade realizada por antigos escravos juntamente com
homens livres. Revela ainda que
alemães participavam de forma ativa de negócios escusos, tendo como centro em 3 Forquilhas. Muitos eram
roubos políticos, porém a maioria era de
roubos comuns. Entre os roubos políticos estão os realizados por José
Pacheco Horn, Manoel Marques Negrinho e outros na fazenda de Dona
Bernardina Batista de Almeida Soares, esposa de Felisberto B. de Almeida Soares
da qual, foram roubadas 130 cabeças de gado . (WEIMER,2008,p.168 ) O que
revela a existência de capangas das forças castilhistas nas fazendas, não como assalariados mas sem salário fixo e presumível que
locupletam-se das vacas gordas de seu patrão. Havia quadrilhas especializadas
em abigeatos que percorriam as colônias
vendendo gado roubado ,das quais ex escravos faziam parte delas faziam parte também lusos e alemães
São
freqüentes os nomes alemães entre os participantes das quadrilhas. Além dos
Gross, também foram indiciados indivíduos que atendiam, por exemplo, por
Burg,Hoffman,Shwartz e Horn. Alguns tinham situação razoável para a sociedade
de então.(Idem. 170)
No começo do século XX não eram incomuns incidentes envolvendo negros e
brancos , podem ser encontrados jornais . Guerino Zugno entrevistado em 1955
por Azevedo informou que: “os colonos não gostam dos negros por causa dos
crimes de homicídio,raptos de moças e emboscadas “(AZEVEDO,1994,p.162).
Mas não é só no depoimento de Zugno que a contravenção se faz presente.
O jornal A Encrenca relata um crime
ocorrido em Caxias 15 de outubro de 1914
Na manhã de quarta feira última ,quando o senhor Angelo Muratori, na
qualidade de sub-intendente interino do 1º distrito,pretendia na rua
Sinimbu,neste cidade efetuar a prisão de
um desconhecido indivíduo de cor mixta,sobre quem pesava a suspeita de ter
praticado furtos,foi pelo mesmo mortalmente ferido com um tiro de pistola
,vindo a falecer.(Encrenca,1914,p2)
Outra notícia citada por Azevedo no dia 22 de julho de 1915,relata um crime
ocorrido em Nova Vicenza . Segundo a nota um colono e um negro haviam
bebido juntos num bar com um negro,o colono deu uma carona para ele em sua carreta; ao
descer para examinar uma roda que estava
com um problema foi morto e roubado. Logo o negro foi preso.(AZEVEDO,
1994, p.327)
Um crime ocorrido em 7 de junho de 1933, no
qual foi morto a facadas o industrial
Orestes Manfro, diretor do Laníficio São Pedro de Galópolis,interior de Caxias
por João de Deus Oliveira Filho,um
mulato de 26 anos natural de Bom Jesus,que morava na localidade há 8 meses.O fato ocupou as manchetes dos
jornais e comoveu os habitantes de Caxias. Grave é o motivo do crime que Manfro teria se negado a contratar o operário. Segundo a memória local
a empresa não contratava negros .(Caxias
Jornal 1933 ,p 1) Não entendi a dúvida faz o que achares nelhor.

Diante do ocorrido não é possível descartar a hipótese que a
contravenção algumas vezes pode ter sido causada pelo preconceito. Nos dois
casos de crime relatos nos jornais parece haver indícios de motivos raciais.O que leva a
concluir que nem sempre era fácil para
os negros achar trabalho no mundo dos brancos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A liberdade ao que tudo indica foi enganosa. Enganosa pois levou da
miséria da escravidão para a escravidão da miséria. A miséria os reaproximou da
contravenção, não mais a do quilombo,mas a da fria forma da lei, contra a qual
a fuga era bem mais difícil. Os antigos escravos foram levados a outro tipo de
prisão, não a do senhor mas a do Estado.
Há muito que pesquisar sobre a
temática. Muitos arquivos e jornais deverão ainda ser levantados para poder
traçar de forma mais precisa possível os indícios dos caminhos seguidos da
escravidão á liberdade. Mas os traços de sua passagem são precisos e podem ser seguidos .
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