terça-feira, 19 de agosto de 2014

RUMO: LIBERDADE TRAJETÓRIAS DOS ANTIGOS ESCRAVOS NA SERRA GAÚCHA




Um novo senhor é sempre severo
(Èsquilo)

Loraine Slomp Giron
Roberto Radünz

            Alguns temas clássicos da historiografia brasileira ainda merecem atenção dos historiadores. Nesse rol estão abordagens em torno da industrialização no Brasil; a questão dos movimentos operários e sociais, e a questão da escravidão. Se esses temas eram candentes nos anos 50 a 80, numa perspectiva notadamente marxista, nos períodos seguintes eles passaram a ser tratados, a partir de novas abordagens teóricas e metodológicas. Essa pluralização das análises responde a dois fenômenos: de um lado a influência de novos paradigmas para a  história e, de outro, a proliferação dos programas de pós-graduação e dos centros de pesquisa, que passaram e dar visibilidade a novas fontes documentais.
            No Rio Grande do Sul, o tema escravidão foi e continua sendo trabalhado por pesquisadores que problematizam a questão buscando novos olhares para o passado. Na esteira desse processo, novos enfoques têm buscado aproximar grandes temas da historiografia gaúcha com o da escravidão e da colonização europeia do século XIX. São representativos desse movimento os esforços de pesquisa  relativos a essa aproximação em universidades, em áreas tradicionais da colonização alemã e italiana. Não se trata de uma exaustão do tema imigração e colonização, mas uma tentativa de ampliar as abordagens para além dos limites da antiga Região Colonial Italiana. Sujeitos históricos distanciados, como colonos e escravos, pelas matrizes explicativas da historiografia gaúcha, recentemente aparecem juntos numa mesma tentativa de abordar a história do Brasil meridional.
            A presença escrava em áreas de colonização, ou seja, nas regiões de terras devolutas, segundo o entendimento oficial do século XIX, não é expressivo. As razões são conhecidas – proibições oficiais após 1850. No entanto não se pode negar a presença negra em áreas de colonização  nem mesmo que descendentes de alemães e italianos tivessem escravos.
            O escravo sempre nutriu o desejo de encontrar a liberdade. Essa liberdade tardou a vir na maioria dos casos, forçando os cativos a buscarem formas de se libertar das correntes da escravidão. A liberdade, acenada pelos senhores quando substituídos na guerra, muitas vezes ficou em promessa não cumprida. O primeiro caminho de fato, na busca de liberdade, foi o da resistência nos quilombos. Nas regiões menos habitadas, como  a da Serra e em suas encostas, vários quilombos foram organizados aproveitando-se do meio natural, marcado pela mata e pelo  isolamento. A situação muda com a abolição, quando os ex-escravos rumam à liberdade buscando espaços de trabalhos nas fazendas, como diaristas; nas cidades, em obras públicas ou em outras atividades que lhes pudessem garantir minimamente a sobrevivência. Essa apresentação integra o projeto Negros na Serra, desenvolvido na Universidade de Caxias do Sul. O objetivo dessa comunicação é analisar em primeiro lugar o caminho dos escravos rumo aos quilombos e a trajetória dos libertos  na  Serra gaúcha.

                       


QUILOMBO: PRIMEIRO CAMINHO
Eu não consentiria em trocar minha miséria por tua escravidão
(Ésquilo)
      


          O primeiro caminho dos escravos no Brasil rumo à liberdade foi o quilombo. No Rio Grande do Sul, formaram-se muitos núcleos de resistência, principalmente nas regiões mais isoladas da Serra e em sua encosta. Marcas  desse primeiro caminho à liberdade continuam existindo. Segundo informa a  Federação das Associações das Comunidades Quilombolas do Rio Grande do Sul,  existem mais de 130 comunidades quilombolas em território gaúcho, mas com  outro caráter e outro sentido.[1]
            A manutenção de tais associações representa uma permanência que merece ser refletida. Elas se concentram, segundo a mesma fonte, no litoral rio-grandense do sul (municípios: São José do Norte, Mostardas, Tavares e Palmares do Sul); na região central (municípios: Restinga Seca, Formigueiro e entorno), e na Serra do Sudeste, a oeste da Laguna dos Patos. A região metropolitana de Porto Alegre abriga pelo menos seis quilombos urbanos, ou seja, as regiões onde o  número de escravos foi maior.
            Duas perguntas básicas acompanham esta reflexão: Quem eram os quilombolas? Onde eles se localizavam? 
            De  forma geral, os moradores dos quilombos tinham duas origens: os escravos das fazendas e os soldados  desertores das forças militares, sejam regionais, sejam  imperiais.  Weimer (1994, p.41) ao tratar da escravidão no Rio Grande do Sul, aponta para o aumento extraordinário da fuga dos escravos na Província após 1850, tanto urbanos como rurais. O aumento de 60% nas fugas, na segunda metade do século XIX,  constitui um indício de que os escravos conheciam seus direitos; que começavam a ser reconhecidos a partir da proibição do tráfico. Os escravos buscaram os quilombos como forma de resistência e de liberdade.
             Segundo Moura (1992, p.34), havia sete quilombos no Rio Grande do Sul, que seriam os do negro Lúcio, situado na ilha dos Marinheiros (Guaiba); o do Arroio (em Arroio dos Ratos); o da Serra de Tapes; o de Manuel Padeiro; o de Rio Pardo; o da Serra do Distrito de Couto; o de Montenegro. Na historiografia e na documentação levantada ao longo da pesquisa,  constatou-se que  essas concentrações eram bem mais numerosas. Há indícios inclusive de que, quando os quilombos deixaram de existir, seus nomes foram guardados na memória dos habitantes e na toponímia da região - sinais evidentes de sua importância.
            Muitos dos antigos quilombos foram abandonados por total impossibilidade de sobreviverem nessa situação. Exemplo disso, na região serrana, o “Morro dos Baianos, Cerro dos Baianos, Quilombo dos Baianinhos ou ainda Morro do Céu, como é conhecido atualmente, trata-se de uma montanha de origem  basáltica  com altitude de 530  metros aproximadamente, que se localiza em Cotiporã”. No início do século XX, viviam da agricultura cerca de vinte famílias provenientes da Bahia. Seu líder era o” patriarca Ezequiel Gonçalves da Cruz, conhecido como “o velho perna de pau”,  casado com Angélica Gonçalves da Cruz. Tiveram sete filhos: Antônio, José, Albino, Olívio, Ezequiel, Angélica e Maria”. (MINOSSO, 2007, p. 24 - 26 )  Malvisto pelo povo da região, o grupo se dispersou, não existindo remanescentes de sua passagem.
            Outro quilombo parece ter existido nas proximidades da antiga fazenda da Pratinha, em Nova Prata, nas terras da sesmaria de Placidina Vieira de Araújo, grande proprietária da região. Reconhecido como comunidade quilombola, ainda “moram no local cinco famílias descendentes do casal Paula  Gonçalves dos Santos e de Pedro Gonçalves dos Santos”.(MINOSSO, 2007, p. 24). Paulina era natural de Guaporé, negando ser  originária do  grupo do Morro dos Baianos. Em 1999, ela conseguiu o registro de  12,5 hectares do  lote 17 da Fazenda da Pratinha, pertencentes ao Estado do Rio Grande do Sul. Apesar de negar o parentesco ao casar com Pedro Gonçalves dos Santos,  ligou-se  ao grupo dos “baianos”, visto que o pai de seu marido, Luis Neves, era conhecido como Luis Baiano.
            Um quilombo citado por Weimer (2008, p.55 ) chamado  São Roque, também existiu na Serra, tendo sido formado por escravos fugidos das fazendas serranas dos Fogaça, Nunes e  Monteiro. Em Criúva pertencente antigamente ao Município de São Francisco de Paula (atual  distrito de Caxias do Sul), há um local  chamado Quilombo, onde outrora viviam negros, mas na região deles já não restam descendentes. Em pesquisa realizada em 2005, encontraram-se apenas lembranças da existência de um grupo de negros que se dispersou. A última sobrevivente que permanecera no local havia falecido no ano anterior, com 103 anos.    
            Alguns quilombos se mantiveram, entre eles o da Mormaça, situado ao norte do Estado, comunidade negra formada por 18 famílias. O grupo vive na região há cerca de 150 anos, em propriedade de 15 hectares, comprada por uma ex-escrava com  nome de  Mormaça. O grupo vive da agricultura, cercado por colonos de origem italiana das colônias de Araújo e Miranda, com os quais estabelece relações difíceis.
            Registros bem mais antigos dão conta da existência de quilombos na região serrana e de como os proprietários agiram, no sentido de capturar os escravos fugitivos. Alves (2010) afirma que em 1843 foi feita solicitação à Câmara de Vereadores de Santo Antônio da Patrulha no sentido de  designar de  um capitão de mato por proprietários de São Francisco de Paula, região dos  Campos de Cima da Serra. Segundo Alves nova solicitação foi feita em  1845 quando “Compareceu nesta Câmara José Cardoso de Oliveira, Capitão do Mato do Distrito de São Francisco de Paula de Cima da Serra ,pedindo que lhe passa se nova provisão visto a que tem estar findo o prazo por que foi assinada. Deliberou-se que se lhe passa se nova Provisão (ALVES, 2010, p. 62).

            Segundo a mesma fonte, outra solicitação foi encaminhada em 1850, sendo então nomeado Capitão do Mato Antônio Correia dos Santos, bem como soldados não pertencentes ao serviço ativo da Guarda Nacional, para auxiliá-lo na captura de escravos fugidos. Tais nomeações são sinais da existência de número apreciável de escravos fugidos e boa era a remuneração que os perseguidores recebiam pela capturas  realizadas.


O FUROR DA LIBERDADE
Não  foi uma ameaça, apenas: a terra põe-se tremer..
O soturno ronco já se faz ouvir.
(Èsquilo0

    Na época da abolição no Brasil, ao que tudo indica havia cerca de 800 mil escravos . Em São Paulo, segundo Florestan Fernandes ,  haveria 397.131 negros e mestiços, que representariam  cerca de 28,6% da população paulista. Contudo, esta população também  tendia diminuir uma vez que as imigrações européias, alteraram a composição da população. Grande parte dessas pessoas vivia na zona rural onde estavam 90% dos paulistas. Ex-escravos, imigrantes e demais brasileiros engrossavam o contínuo fluxo migratório da zona rural em direção à cidade, criando   intensa teria de relações  sociais. (ANDREWS, 1998, p. 93-98)
O número de escravos diminuiu de forma gradativa , em parte foi devido à guerras platinas  em parte devido ao aumento das fugas em massa dos escravos após 1850 . ”Ocorreu o incremento de 60% nas fugas em relação há 15 anos antes, talvez por consequência da guerra”(WEIMER,1994  p.41) 

No Rio Grande do Sul o número de escravos reduziu com o tempo, após 1870 quando a exportação gaúcha de escravos se torna a maior do que a do restante do  Brasil  e a tendência é de redução  no seu número. Em 1872, os resultados do Censo, excluídos os habitantes de quatro paróquias, davam ao Rio Grande do Sul uma população de 434.813 almas. Os pretos constituíam 18,28% e os pardos 16,32 % e os brancos 59,43% da população, ou seja, haveria ainda na Província cerca de 80 mil escravos.
            A substituição de mão-de-obra escrava pela livre, determinadas pelas leis que terminaram de forma gradativa com a escravidão contribuiu para acelerar a vinda de colonos estrangeiros, indispensáveis para garantir a produção agrícola regional, o que contribuiu para o aumento da população branca. Dessa forma, em pouco mais de 90 anos, o percentual da população negra baixou de 50 % à pouco menos de 20% do total da população. No censo de 1890, a população do Estado dobrara, tinha 897.455 habitantes, distribuídos em 63 municípios, sendo que, destes, 459.418 eram homens e 438.337 mulheres. “Ao fim do império, a distribuição percentual da população era a seguinte: brancos 70,17%; pretos 8,68%; caboclos 5,35% e mestiços 15,80%.” (Diretoria de estatística, 1908, p.81)
      Se for calculado o número de negros e mestiços recenseados após a abolição o número de escravos existentes  no RS se aproximaria dos 25 mil . Mas ainda mais nebuloso que o  número  de  escravos libertos no  Rio Grande do Sul é o dos escravos que restaram  nos campos da  Serra no mesmo período , mas ao que tudo indica pode  se aproximar de 2 ,5 mil .
           Para os dias de hoje o número de escravos deixados sem auxílio pode parecer pequeno, mas na época um exército de 800 mil desabrigados era apreciável. A questão para o governo era de como ocupar tais pessoas num mundo eminentemente rural. O governo brasileiro decidiu pelo mais fácil, ou seja, não fazer nada. O mesmo propósito seguiu o governo estadual.
  
            TRABALHO OU CONTRAVENÇÃO?
Eis como podemos ferir àqueles que no maltrataram
Ésquilo

Não é possível determinar com certeza o aconteceu em 1888 com os escravos  libertos do Brasil, no Rio Grande ou na Serra. Há mais hipóteses do que certezas. Os indícios podem ser encontrados nas memórias, nos processos judiciais, nas noticias de jornais, e esses levam a crer que houve uma hecatombe social, segundo a quais antigos escravos corriam das fazendas em busca das cidades em busca de sobrevivência causando desordens e crimes. A debandada de escravos tornou-se um problema nacional que repercutiu até no Parlamento Brasileiro em geral avesso às questões sociais, que registra em seus Anais que

Os escravos fugiram em massa, prejudicando não só os grandes interesses econômicos, mas também interesses de segurança pública: houve mortes, houve ferimentos, houve invasão de localidades, houve o terror derramado por todas as famílias, e aquela importante província durante muitos meses permaneceu no terror mais aflitivo. Felizmente os proprietários de São Paulo, compreenderam que, diante da inação da Força Pública, melhor seria capitularem perante a desordem, e deram liberdade aos escravos.(Internet)

Os negros apesar da diferença de conceito de trabalho que os africanos tinham em relação a dos europeus buscaram o trabalho, como bem destaca Costa

A idéia de que o negro não trabalha ou de que não tem organização perpassa  a cultura italiana como comprova Bernardi(1937) em Nanetto Pipetta que retrata a vida e o pensar dos primeiros imigrantes italianos. A situação de escravidão tornou o negro sujeito a outra experiência cultural para a qual o conceito de trabalho e de economia difere do italiano. (COSTA,1982, p.108)



Muitos foram os trabalhos realizados pelos negros na Serra após a abolição. Para a maior parte dos escravos que viviam nas fazendas o caminho parece ter sido o mesmo em todas as regiões, ou seja,  a debandada em direção às cidades

 Grande parte dos libertos, depois de perambular por estradas e baldios, dirigiu-se às grandes cidades: Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Lá, ergueram os chamados bairros africanos, origem das favelas modernas. Trocaram a senzala pelos casebres. Apesar da impossibilidade de plantar, acharam ali um meio social menos hostil, mesmo que ainda miserável “(Internet).

Se antes da abolição o caminho da liberdade era a contravenção representada pelo quilombo, após a abolição outros rumos poderiam ser traçados.  Na busca de novos caminhos não puderam contar com o apoio governamental ou privado, já que as associações abolicionistas deixaram de atuar após a sua libertação oficial. Deixados à sua própria sorte os recém libertos buscaram dois grandes rumos: o do trabalho e o da contravenção. Segundo os casos encontrados na região continuaram em economia de subsistência, na qual já estavam envolvidos antes da liberdade.
            O caminho começava no lugar onde viveram aprisionados.  Os que viviam e atuavam nas cidades, em vez de trabalharem para os donos como vendedores ambulantes ou alugados por eles para serviços variados devem ter permanecido na cidade, sua presença é atestada nos jornais da época. O mesmo parece ter ocorrido com os escravos que prestavam que trabalhavam nas casas de seus donos na zona urbana ou na zona rural, podem ter se mantido as mesmas atividades, porém na condição de trabalhadores livres.
            Diversa foi à direção tomada pelos escravos que viviam na zona rural. Pelo número de quilombos registrados na região fica evidente que muitos deles lá permaneceram, mudando sua condição de escravos fugidos para homens  livres
            Outros trocaram a miséria da senzala pela dos casebres.  Várias são as fotos do inicio da década de 1890 que revelam as péssimas condições de vida do ex escravos. O mesmo ocorreu na região da Serra do nordeste gaúcho. Mas nem todos os escravos deixaram as fazendas alguns se instalaram em seus limites, outros receberam terras de seus donos Segundo Alves  
O Capitão Narciso José Pacheco, tinha um filho (ilegítimo) havido com uma escrava, de nome José de Freitas Noronha. Com a morte de Narciso, Manoel Machado Pacheco reconheceu o neto que recebeu de herança uma parte da fazenda. Assim, Noronha, tornou-se o primeiro descendente de escravo com propriedade na região. ( ALVES, 2010,p55)
     Poucos foram os casos de filhos de senhores e de escrava que foram reconhecidos como filhos. Ainda menor foi o número daqueles que receberam terras, nem todos os filhos bastardos de fazendeiros tiveram a sorte de Noronha. A maioria dos escravos buscou trabalho em fazendas vizinhas oferecendo-se como jornaleiros. Outros procuraram vilas próximas.
 Muitos chegaram a lugares improváveis as antigas colônias de Alfredo Chaves e Caxias. Ao se instalarem próximos a essas n povoações agruparam-se em regiões altas desabitadas em locais próximos ao centro, em geral em morros desabitados. As favelas assim formadas recebiam o nome de África. Nelas passaram a viver os antigos escravos provenientes das fazendas de criação de gado situadas nas proximidades das antigas colônias povoadas por imigrantes europeus As vilas coloniais não eram estranhas aos ex escravos, muitos deles haviam sido tropeiros das fazendas e conheciam a região.
            Os tropeiros muitas vezes viajavam sozinhos, sem donos ou capatazes seguindo  a antiga estrada Provincial, aberta na década de 1870 ,que ligava os Campos de Cima da Serra ao rio Caí no Porto de Guimarães; ou  a Estrada  Buarque de Macedo que ligava região dos  campos com o vale do Cai em São João de Montenegro,  passando por Alfredo Chaves, Dona Isabel e Conde d”Eu. Tais caminhos mais tarde, se tornaram a rota dos  imigrantes.Com a demarcação  e o povoamento das colônias mais caminhos foram abertos  por eles passavam mais tropeiros que  em geral, eram antigos escravos  de a muito acostumados a essa atividade . Muitos foram os tropeiros que se estabeleceram nas antigas  colônias.
 Em Caxias o principal agrupamento de negros ficava situado no Burgo. Onde vivem ainda muitos de seus descendentes. Outro foi o Buraco Quente  e a Zona do Cemitério ,situados próximo do centro atual da cidade.  Em Bento Gonçalves os negros se reuniram na favela chamada Divinéia , próxima da Cidade Alta
Em busca de trabalho alguns ex escravos entraram para a  Brigada Militar do Rio Grande do Sul , foi fundada em 1837, em plena guerra civil Farroupilha , e que desde o seu  inicio  os aceitou.Assim muitos deles entraram naquela corporação.Alguns foram  enviados  para a Serra.  A  força era pequena  e, portanto pequeno também  foi pequeno o número de brigadianos que se fixaram na região.
            Além de tropeiros e de soldados os antigos escravos se tornaram como trabalhadores braçais, ajudaram na abertura de estradas e, mais tarde na construção da estrada de ferro . Nas fotos do período da abertura da ferrovia grande número de negros esta presente, da mesma maneira nos serviços públicos do inicio do século XX.
             A estrada de ferro prometida em 1875, nem o fim do Império, nem o inicio da República resolveu o grave problema dos transportes das antigas colônias. O projeto só saiu do papel
 na primeira década do século XX .A estrada de ferro chegou a Caxias em 1910, em Bento Gonçalves em 1919. Muitos trabalhadores negros chegaram à serra com a estrada de ferro assentando dormentes e explodindo rochas  e alguns nela passaram a residir.Sem esquecer que era expressivo o número de negros que trabalhavam como empregados da ferrovia,tanto na condição de guarda-chaves, como de condutores.
 Nem todos os antigos escravos entraram para o mundo do trabalho, alguns  buscaram o da contravenção Cardoso(2007, p.60) ao analisar a escravidão no vale do Cai ,no lugar chamado de Rincão do Cascalho relata a ocorrência de  um crime ,no qual    um escravo  matou  com um tiro um mascate italiano confundindo-o com o negociante  que pretendia assassinar,no caso  dono da casa de negocio.Tal ação revela que algumas vezes os escravos andavam armados e armavam vinganças contra brancos que na eram relacionados diretamente a sua condição de escravos.,tal condição deveria ser do conhecimento de seus proprietários

.Weimer apresenta dados que revelam que as regiões de imigração alemã e italiana foram as principais consumidoras do gado roubado de São Francisco de Paula, atividade realizada por antigos escravos juntamente  com homens  livres. Revela ainda que  alemães participavam de forma  ativa de  negócios escusos, tendo como  centro em  3 Forquilhas. Muitos eram roubos políticos, porém a maioria era de  roubos comuns. Entre os roubos políticos estão os realizados por José Pacheco Horn,   Manoel Marques Negrinho e outros na fazenda de Dona Bernardina Batista de Almeida Soares, esposa de Felisberto B. de Almeida Soares da qual, foram roubadas 130 cabeças de gado . (WEIMER,2008,p.168 ) O que revela  a existência de capangas das forças castilhistas nas fazendas,  não como assalariados mas  sem salário fixo e presumível que locupletam-se das vacas gordas de seu patrão. Havia quadrilhas especializadas em abigeatos que percorriam as colônias  vendendo gado roubado ,das quais ex escravos  faziam parte delas faziam parte  também lusos e alemães
  São freqüentes os nomes alemães entre os participantes das quadrilhas. Além dos Gross, também foram indiciados indivíduos que atendiam, por exemplo, por Burg,Hoffman,Shwartz e Horn. Alguns tinham situação razoável para a sociedade de então.(Idem. 170)

No começo do século XX não eram incomuns incidentes envolvendo negros e brancos , podem ser encontrados jornais . Guerino Zugno entrevistado em 1955 por Azevedo informou que: “os colonos não gostam dos negros por causa dos crimes de homicídio,raptos de moças e emboscadas “(AZEVEDO,1994,p.162).
Mas não é só no depoimento de Zugno que a contravenção se faz presente. O jornal A Encrenca   relata um crime ocorrido em Caxias 15 de outubro de 1914

Na manhã de quarta feira última ,quando o senhor Angelo Muratori, na qualidade de sub-intendente interino do 1º distrito,pretendia na rua Sinimbu,neste cidade  efetuar a prisão de um desconhecido indivíduo de cor mixta,sobre quem pesava a suspeita de ter praticado furtos,foi pelo mesmo mortalmente ferido com um tiro de pistola ,vindo a falecer.(Encrenca,1914,p2)

Outra notícia citada por Azevedo no dia 22 de julho de 1915,relata  um crime  ocorrido em Nova Vicenza . Segundo a nota um colono e um negro haviam bebido juntos   num bar  com um negro,o colono  deu uma carona para ele em sua carreta; ao descer para examinar uma  roda que estava com um problema foi morto e roubado. Logo o negro foi preso.(AZEVEDO, 1994, p.327)


Diante do ocorrido não é possível descartar a hipótese que a contravenção algumas vezes pode ter sido causada pelo preconceito. Nos dois casos de crime relatos nos jornais parece haver   indícios de motivos raciais.O que leva a concluir que nem sempre era  fácil para os negros achar trabalho no mundo dos brancos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A liberdade ao que tudo indica foi enganosa. Enganosa pois levou da miséria da escravidão para a escravidão da miséria. A miséria os reaproximou da contravenção, não mais a do quilombo,mas a da fria forma da lei, contra a qual a fuga era bem mais difícil. Os antigos escravos foram levados a outro tipo de prisão, não a do senhor mas a do Estado.
 Há muito que pesquisar sobre a temática. Muitos arquivos e jornais deverão ainda ser levantados para poder traçar de forma mais precisa possível os indícios dos caminhos seguidos da escravidão á liberdade. Mas os traços de sua passagem são precisos  e podem ser seguidos .
REFERÊNCIAS
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ALVES, Luís Antônio .Criúva: um povoado brasileiro.Porto Alegre: Evangraf, 2010
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AZEVEDO, Thales de. Os italianos no Rio Grande do Sul: cadernos de pesquisa. Caxias do Sul EDUCS. 1994 .
CARDOSO,Rausl R. Schefer.  Escravidão Rural Formação de um território negro no vale do Cai .RS 1870/1888.Porto Alegre:EST ,2007.
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WEIMER, Rodrigo de Azevedo. Os nomes da  liberdade. Ex escravos na serra gaúcha no pós abolição.São Leopoldo, Unisinos,  2008.

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