terça-feira, 29 de outubro de 2013

O FUROR DA LIBERDADE


Não  foi uma ameaça, apenas: a terra põe-se tremer..
O soturno ronco já se faz ouvir.
(Èsquilo0

            Na época da abolição no Brasil, ao que tudo indica havia cerca de 800 mil escravos . Em São Paulo, segundo Florestan Fernandes ,  haveria 397.131 negros e mestiços, que representariam  cerca de 28,6% da população paulista. Contudo, esta população também  tendia diminuir uma vez que as imigrações européias, alteraram a composição da população. Grande parte dessas pessoas vivia na zona rural onde estavam 90% dos paulistas. Ex-escravos, imigrantes e demais brasileiros engrossavam o contínuo fluxo migratório da zona rural em direção à cidade, criando   intensa teria de relações  sociais. (ANDREWS, 1998, p. 93-98)
O número de escravos diminuiu de forma gradativa , em parte foi devido à guerras platinas  em parte devido ao aumento das fugas em massa dos escravos após 1850 . ”Ocorreu o incremento de 60% nas fugas em relação há 15 anos antes, talvez por consequência da guerra”(WEIMER,1994  p.41) 

No Rio Grande do Sul o número de escravos reduziu com o tempo, após 1870 quando a exportação gaúcha de escravos se torna a maior do que a do restante do  Brasil  e a tendência é de redução  no seu número. Em 1872, os resultados do Censo, excluídos os habitantes de quatro paróquias, davam ao Rio Grande do Sul uma população de 434.813 almas. Os pretos constituíam 18,28% e os pardos 16,32 % e os brancos 59,43% da população, ou seja, haveria ainda na Província cerca de 80 mil escravos.
            A substituição de mão-de-obra escrava pela livre, determinadas pelas leis que terminaram de forma gradativa com a escravidão contribuiu para acelerar a vinda de colonos estrangeiros, indispensáveis para garantir a produção agrícola regional, o que contribuiu para o aumento da população branca. Dessa forma, em pouco mais de 90 anos, o percentual da população negra baixou de 50 % à pouco menos de 20% do total da população. No censo de 1890, a população do Estado dobrara, tinha 897.455 habitantes, distribuídos em 63 municípios, sendo que, destes, 459.418 eram homens e 438.337 mulheres. “Ao fim do império, a distribuição percentual da população era a seguinte: brancos 70,17%; pretos 8,68%; caboclos 5,35% e mestiços 15,80%.” (Diretoria de estatística, 1908, p.81)
      Se for calculado o número de negros e mestiços recenseados após a abolição o número de escravos existentes  no RS se aproximaria dos 25 mil . Mas ainda mais nebuloso que o  número  de  escravos libertos no  Rio Grande do Sul é o dos escravos que restaram  nos campos da  Serra no mesmo período , mas ao que tudo indica pode  se aproximar de 2 ,5 mil .
           Para os dias de hoje o número de escravos deixados sem auxílio pode parecer pequeno, mas na época um exército de 800 mil desabrigados era apreciável. A questão para o governo era de como ocupar tais pessoas num mundo eminentemente rural. O governo brasileiro decidiu pelo mais fácil, ou seja, não fazer nada. O mesmo propósito seguiu o governo estadual.
  

            TRABALHO OU CONTRAVENÇÃO?
Eis como podemos ferir àqueles que no maltrataram
Ésquilo

Não é possível determinar com certeza o aconteceu em 1888 com os escravos  libertos do Brasil, no Rio Grande ou na Serra. Há mais hipóteses do que certezas. Os indícios podem ser encontrados nas memórias, nos processos judiciais, nas noticias de jornais, e esses levam a crer que houve uma hecatombe social, segundo a quais antigos escravos corriam das fazendas em busca das cidades em busca de sobrevivência causando desordens e crimes. A debandada de escravos tornou-se um problema nacional que repercutiu até no Parlamento Brasileiro em geral avesso às questões sociais, que registra em seus Anais que

Os escravos fugiram em massa, prejudicando não só os grandes interesses econômicos, mas também interesses de segurança pública: houve mortes, houve ferimentos, houve invasão de localidades, houve o terror derramado por todas as famílias, e aquela importante província durante muitos meses permaneceu no terror mais aflitivo. Felizmente os proprietários de São Paulo, compreenderam que, diante da inação da Força Pública, melhor seria capitularem perante a desordem, e deram liberdade aos escravos.(Internet)

Os negros apesar da diferença de conceito de trabalho que os africanos tinham em relação a dos europeus buscaram o trabalho, como bem destaca Costa. A idéia de que o negro não trabalha ou de que não tem organização perpassa  a cultura italiana como comprova Bernardi(1937) em Nanetto Pipetta que retrata a vida e o pensar dos primeiros imigrantes italianos. A situação de escravidão tornou o negro sujeito a outra experiência cultural para a qual o conceito de trabalho e de economia difere do italiano. (COSTA,1982, p.108)



Muitos foram os trabalhos realizados pelos negros na Serra após a abolição. Para a maior parte dos escravos que viviam nas fazendas o caminho parece ter sido o mesmo em todas as regiões, ou seja,  a debandada em direção às cidades

            Grande parte dos libertos, depois de perambular por estradas e baldios, dirigiu-se às grandes cidades: Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Lá, ergueram os chamados bairros africanos, origem das favelas modernas. Trocaram a senzala pelos casebres. Apesar da impossibilidade de plantar, acharam ali um meio social menos hostil, mesmo que ainda miserável “(Internet).

Se antes da abolição o caminho da liberdade era a contravenção representada pelo quilombo, após a abolição outros rumos poderiam ser traçados.  Na busca de novos caminhos não puderam contar com o apoio governamental ou privado, já que as associações abolicionistas deixaram de atuar após a sua libertação oficial. Deixados à sua própria sorte os recém-libertos buscaram dois grandes rumos: o do trabalho e o da contravenção. Segundo os casos encontrados na região continuaram em economia de subsistência, na qual já estavam envolvidos antes da liberdade.
            O caminho começava no lugar onde viveram aprisionados.  Os que viviam e atuavam nas cidades, em vez de trabalharem para os donos como vendedores ambulantes ou alugados por eles para serviços variados devem ter permanecido na cidade, sua presença é atestada nos jornais da época. O mesmo parece ter ocorrido com os escravos que prestavam que trabalhavam nas casas de seus donos na zona urbana ou na zona rural, podem ter se mantido as mesmas atividades, porém na condição de trabalhadores livres.
            Diversa foi à direção tomada pelos escravos que viviam na zona rural. Pelo número de quilombos registrados na região fica evidente que muitos deles lá permaneceram, mudando sua condição de escravos fugidos para homens  livres
            Outros trocaram a miséria da senzala pela dos casebres.  Várias são as fotos do inicio da década de 1890 que revelam as péssimas condições de vida do ex escravos. O mesmo ocorreu na região da Serra do nordeste gaúcho. Mas nem todos os escravos deixaram as fazendas alguns se instalaram em seus limites, outros receberam terras de seus donos Segundo Alves  
O Capitão Narciso José Pacheco, tinha um filho (ilegítimo) havido com uma escrava, de nome José de Freitas Noronha. Com a morte de Narciso, Manoel Machado Pacheco reconheceu o neto que recebeu de herança uma parte da fazenda. Assim, Noronha, tornou-se o primeiro descendente de escravo com propriedade na região. ( ALVES, 2010,p55)
     Poucos foram os casos de filhos de senhores e de escrava que foram reconhecidos como filhos. Ainda menor foi o número daqueles que receberam terras, nem todos os filhos bastardos de fazendeiros tiveram a sorte de Noronha. A maioria dos escravos buscou trabalho em fazendas vizinhas oferecendo-se como jornaleiros. Outros procuraram vilas próximas.
 Muitos chegaram a lugares improváveis as antigas colônias de Alfredo Chaves e Caxias. Ao se instalarem próximos a essas n povoações agruparam-se em regiões altas desabitadas em locais próximos ao centro, em geral em morros desabitados. As favelas assim formadas recebiam o nome de África. Nelas passaram a viver os antigos escravos provenientes das fazendas de criação de gado situadas nas proximidades das antigas colônias povoadas por imigrantes europeus As vilas coloniais não eram estranhas aos ex escravos, muitos deles haviam sido tropeiros das fazendas e conheciam a região.
            Os tropeiros muitas vezes viajavam sozinhos, sem donos ou capatazes seguindo  a antiga estrada Provincial, aberta na década de 1870 ,que ligava os Campos de Cima da Serra ao rio Caí no Porto de Guimarães; ou  a Estrada  Buarque de Macedo que ligava região dos  campos com o vale do Cai em São João de Montenegro,  passando por Alfredo Chaves, Dona Isabel e Conde d”Eu. Tais caminhos mais tarde, se tornaram a rota dos  imigrantes.Com a demarcação  e o povoamento das colônias mais caminhos foram abertos  por eles passavam mais tropeiros que  em geral, eram antigos escravos  de a muito acostumados a essa atividade . Muitos foram os tropeiros que se estabeleceram nas antigas  colônias.
 Em Caxias o principal agrupamento de negros ficava situado no Burgo. Onde vivem ainda muitos de seus descendentes. Outro foi o Buraco Quente  e a Zona do Cemitério,situados próximo do centro atual da cidade.  Em Bento Gonçalves os negros se reuniram na favela chamada Divineia , próxima da Cidade Alta
Em busca de trabalho alguns ex escravos entraram para a  Brigada Militar do Rio Grande do Sul , foi fundada em 1837, em plena guerra civil Farroupilha , e que desde o seu  inicio  os aceitou.Assim muitos deles entraram naquela corporação.Alguns foram  enviados  para a Serra.  A  força era pequena  e, portanto pequeno também  foi pequeno o número de brigadianos que se fixaram na região.
            Além de tropeiros e de soldados os antigos escravos se tornaram como trabalhadores braçais, ajudaram na abertura de estradas e, mais tarde na construção da estrada de ferro . Nas fotos do período da abertura da ferrovia grande número de negros esta presente, da mesma maneira nos serviços públicos do inicio do século XX.
             A estrada de ferro prometida em 1875, nem o fim do Império, nem o inicio da República resolveu o grave problema dos transportes das antigas colônias. O projeto só saiu do papel na primeira década do século XX .A estrada de ferro chegou a Caxias em 1910, em Bento Gonçalves em 1919. Muitos trabalhadores negros chegaram à serra com a estrada de ferro assentando dormentes e explodindo rochas  e alguns nela passaram a residir.Sem esquecer que era expressivo o número de negros que trabalhavam como empregados da ferrovia,tanto na condição de guarda-chaves, como de condutores.
 Nem todos os antigos escravos entraram para o mundo do trabalho, alguns  buscaram o da contravenção Cardoso(2007, p.60) ao analisar a escravidão no vale do Cai ,no lugar chamado de Rincão do Cascalho relata a ocorrência de  um crime ,no qual    um escravo  matou  com um tiro um mascate italiano confundindo-o com o negociante  que pretendia assassinar,no caso  dono da casa de negocio.Tal ação revela que algumas vezes os escravos andavam armados e armavam vinganças contra brancos que na eram relacionados diretamente a sua condição de escravos.,tal condição deveria ser do conhecimento de seus proprietários

.Weimer apresenta dados que revelam que as regiões de imigração alemã e italiana foram as principais consumidoras do gado roubado de São Francisco de Paula, atividade realizada por antigos escravos juntamente  com homens  livres. Revela ainda que  alemães participavam de forma  ativa de  negócios escusos, tendo como  centro em  3 Forquilhas. Muitos eram roubos políticos, porém a maioria era de  roubos comuns. Entre os roubos políticos estão os realizados por José Pacheco Horn,   Manoel Marques Negrinho e outros na fazenda de Dona Bernardina Batista de Almeida Soares, esposa de Felisberto B. de Almeida Soares da qual, foram roubadas 130 cabeças de gado . (WEIMER,2008,p.168 ) O que revela  a existência de capangas das forças castilhistas nas fazendas,  não como assalariados mas  sem salário fixo e presumível que locupletam-se das vacas gordas de seu patrão. Havia quadrilhas especializadas em abigeatos que percorriam as colônias  vendendo gado roubado ,das quais ex escravos  faziam parte delas faziam parte  também lusos e alemães
  São freqüentes os nomes alemães entre os participantes das quadrilhas. Além dos Gross, também foram indiciados indivíduos que atendiam, por exemplo, por Burg,Hoffman,Shwartz e Horn. Alguns tinham situação razoável para a sociedade de então.(Idem. 170)

No começo do século XX não eram incomuns incidentes envolvendo negros e brancos , podem ser encontrados jornais . Guerino Zugno entrevistado em 1955 por Azevedo informou que: “os colonos não gostam dos negros por causa dos crimes de homicídio,raptos de moças e emboscadas “(AZEVEDO,1994,p.162).
Mas não é só no depoimento de Zugno que a contravenção se faz presente. O jornal A Encrenca   relata um crime ocorrido em Caxias 15 de outubro de 1914

Na manhã de quarta feira última ,quando o senhor Angelo Muratori, na qualidade de sub-intendente interino do 1º distrito,pretendia na rua Sinimbu,neste cidade  efetuar a prisão de um desconhecido indivíduo de cor mixta,sobre quem pesava a suspeita de ter praticado furtos,foi pelo mesmo mortalmente ferido com um tiro de pistola ,vindo a falecer.(Encrenca,1914,p2)

Outra notícia citada por Azevedo no dia 22 de julho de 1915,relata  um crime  ocorrido em Nova Vicenza . Segundo a nota um colono e um negro haviam bebido juntos   num bar  com um negro,o colono  deu uma carona para ele em sua carreta; ao descer para examinar uma  roda que estava com um problema foi morto e roubado. Logo o negro foi preso.(AZEVEDO, 1994, p.327)


Diante do ocorrido não é possível descartar a hipótese que a contravenção algumas vezes pode ter sido causada pelo preconceito. Nos dois casos de crime relatos nos jornais parece haver   indícios de motivos raciais.O que leva a concluir que nem sempre era  fácil para os negros achar trabalho no mundo dos brancos.




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