Não foi uma ameaça, apenas: a terra põe-se tremer..
O soturno ronco já se faz ouvir.
(Èsquilo0
Na época da abolição no Brasil, ao
que tudo indica havia cerca de 800 mil escravos . Em São Paulo, segundo
Florestan Fernandes , haveria 397.131 negros e mestiços, que
representariam cerca de 28,6% da população paulista. Contudo, esta
população também tendia diminuir uma vez que as imigrações européias,
alteraram a composição da população. Grande parte dessas pessoas vivia na zona
rural onde estavam 90% dos paulistas. Ex-escravos, imigrantes e demais
brasileiros engrossavam o contínuo fluxo migratório da zona rural em direção à
cidade, criando intensa teria de relações sociais. (ANDREWS,
1998, p. 93-98)
O número de escravos diminuiu de forma gradativa , em parte
foi devido à guerras platinas em parte devido ao aumento das fugas em
massa dos escravos após 1850 . ”Ocorreu o incremento de 60% nas fugas em
relação há 15 anos antes, talvez por consequência da guerra”(WEIMER,1994
p.41)
No Rio Grande do Sul o número de escravos reduziu com o
tempo, após 1870 quando a exportação gaúcha de escravos se torna a maior do que
a do restante do Brasil e a tendência é de redução no seu
número. Em 1872, os resultados do Censo, excluídos os habitantes de quatro
paróquias, davam ao Rio Grande do Sul uma população de 434.813 almas. Os pretos
constituíam 18,28% e os pardos 16,32 % e os brancos 59,43% da população, ou
seja, haveria ainda na Província cerca de 80 mil escravos.
A substituição de
mão-de-obra escrava pela livre, determinadas pelas leis que terminaram de forma
gradativa com a escravidão contribuiu para acelerar a vinda de colonos
estrangeiros, indispensáveis para garantir a produção agrícola regional, o que
contribuiu para o aumento da população branca. Dessa forma, em pouco mais de 90
anos, o percentual da população negra baixou de 50 % à pouco menos de 20% do
total da população. No censo de 1890, a população do Estado dobrara, tinha
897.455 habitantes, distribuídos em 63 municípios, sendo que, destes, 459.418
eram homens e 438.337 mulheres. “Ao fim do império, a distribuição percentual
da população era a seguinte: brancos 70,17%; pretos 8,68%; caboclos 5,35% e
mestiços 15,80%.” (Diretoria de
estatística, 1908, p.81)
Se for calculado o número de negros e mestiços recenseados após a abolição o
número de escravos existentes no RS se aproximaria dos 25 mil . Mas ainda
mais nebuloso que o número de escravos libertos no Rio
Grande do Sul é o dos escravos que restaram nos campos da Serra no
mesmo período , mas ao que tudo indica pode se aproximar de 2 ,5 mil .
Para os dias de hoje o número de escravos deixados sem auxílio pode parecer
pequeno, mas na época um exército de 800 mil desabrigados era apreciável. A
questão para o governo era de como ocupar tais pessoas num mundo eminentemente
rural. O governo brasileiro decidiu pelo mais fácil, ou seja, não fazer nada. O
mesmo propósito seguiu o governo estadual.
TRABALHO OU CONTRAVENÇÃO?
Eis como podemos ferir àqueles que no maltrataram
Ésquilo
Não é possível determinar com certeza o aconteceu em 1888
com os escravos libertos do Brasil, no Rio Grande ou na Serra. Há mais
hipóteses do que certezas. Os indícios podem ser encontrados nas memórias, nos
processos judiciais, nas noticias de jornais, e esses levam a crer que houve
uma hecatombe social, segundo a quais antigos escravos corriam das fazendas em
busca das cidades em busca de sobrevivência causando desordens e crimes. A
debandada de escravos tornou-se um problema nacional que repercutiu até no
Parlamento Brasileiro em geral avesso às questões sociais, que registra em seus
Anais que
Os escravos fugiram em massa, prejudicando não só os
grandes interesses econômicos, mas também interesses de segurança pública:
houve mortes, houve ferimentos, houve invasão de localidades, houve o terror
derramado por todas as famílias, e aquela importante província durante muitos
meses permaneceu no terror mais aflitivo. Felizmente os proprietários de São
Paulo, compreenderam que, diante da inação da Força Pública, melhor seria
capitularem perante a desordem, e deram liberdade aos escravos.(Internet)
Os negros apesar da diferença de conceito de trabalho que
os africanos tinham em relação a dos europeus buscaram o trabalho, como bem
destaca Costa. A idéia de que o negro não trabalha ou de que não tem
organização perpassa a cultura italiana como comprova Bernardi(1937) em
Nanetto Pipetta que retrata a vida e o pensar dos primeiros imigrantes
italianos. A situação de escravidão tornou o negro sujeito a outra experiência
cultural para a qual o conceito de trabalho e de economia difere do italiano. (COSTA,1982, p.108)
Muitos foram os trabalhos realizados pelos negros na Serra
após a abolição. Para a maior parte dos escravos que viviam nas fazendas o
caminho parece ter sido o mesmo em todas as regiões, ou seja, a debandada
em direção às cidades
Grande
parte dos libertos, depois de perambular por estradas e baldios, dirigiu-se às
grandes cidades: Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Lá, ergueram os chamados
bairros africanos, origem das favelas modernas. Trocaram a senzala pelos
casebres. Apesar da impossibilidade de plantar, acharam ali um meio social
menos hostil, mesmo que ainda miserável “(Internet).
Se antes da abolição o caminho da liberdade era a
contravenção representada pelo quilombo, após a abolição outros rumos poderiam
ser traçados. Na busca de novos caminhos não puderam contar com o apoio
governamental ou privado, já que as associações abolicionistas deixaram de
atuar após a sua libertação oficial. Deixados à sua própria sorte os recém-libertos
buscaram dois grandes rumos: o do trabalho e o da contravenção. Segundo os
casos encontrados na região continuaram em economia de subsistência, na qual já
estavam envolvidos antes da liberdade.
O caminho começava no lugar onde viveram aprisionados. Os que viviam e
atuavam nas cidades, em vez de trabalharem para os donos como vendedores
ambulantes ou alugados por eles para serviços variados devem ter permanecido na
cidade, sua presença é atestada nos jornais da época. O mesmo parece ter
ocorrido com os escravos que prestavam que trabalhavam nas casas de seus donos
na zona urbana ou na zona rural, podem ter se mantido as mesmas atividades,
porém na condição de trabalhadores livres.
Diversa foi à direção tomada pelos escravos que viviam na zona rural. Pelo
número de quilombos registrados na região fica evidente que muitos deles lá
permaneceram, mudando sua condição de escravos fugidos para homens livres
Outros trocaram a miséria da senzala pela dos casebres. Várias são as
fotos do inicio da década de 1890 que revelam as péssimas condições de vida do
ex escravos. O mesmo ocorreu na região da Serra do nordeste gaúcho. Mas nem
todos os escravos deixaram as fazendas alguns se instalaram em seus limites,
outros receberam terras de seus donos Segundo Alves
O Capitão Narciso José Pacheco, tinha um filho (ilegítimo)
havido com uma escrava, de nome José de Freitas Noronha. Com a morte de
Narciso, Manoel Machado Pacheco reconheceu o neto que recebeu de herança uma
parte da fazenda. Assim, Noronha, tornou-se o primeiro descendente de escravo
com propriedade na região. ( ALVES, 2010,p55)
Poucos foram os casos de filhos de senhores e de escrava que foram reconhecidos
como filhos. Ainda menor foi o número daqueles que receberam terras, nem todos
os filhos bastardos de fazendeiros tiveram a sorte de Noronha. A maioria dos
escravos buscou trabalho em fazendas vizinhas oferecendo-se como jornaleiros.
Outros procuraram vilas próximas.
Muitos
chegaram a lugares improváveis as antigas colônias de Alfredo Chaves e Caxias.
Ao se instalarem próximos a essas n povoações agruparam-se em regiões altas
desabitadas em locais próximos ao centro, em geral em morros desabitados. As
favelas assim formadas recebiam o nome de África. Nelas passaram a viver os
antigos escravos provenientes das fazendas de criação de gado situadas nas
proximidades das antigas colônias povoadas por imigrantes europeus As vilas
coloniais não eram estranhas aos ex escravos, muitos deles haviam sido
tropeiros das fazendas e conheciam a região.
Os tropeiros muitas vezes viajavam sozinhos, sem donos ou capatazes
seguindo a antiga estrada Provincial, aberta na década de 1870 ,que
ligava os Campos de Cima da Serra ao rio Caí no Porto de Guimarães; ou a
Estrada Buarque de Macedo que ligava região dos campos com o vale
do Cai em São João de Montenegro, passando por Alfredo Chaves, Dona
Isabel e Conde d”Eu. Tais caminhos mais tarde, se tornaram a rota dos
imigrantes.Com a demarcação e o povoamento das colônias mais caminhos
foram abertos por eles passavam mais tropeiros que em geral, eram
antigos escravos de a muito acostumados a essa atividade . Muitos foram
os tropeiros que se estabeleceram nas antigas colônias.
Em Caxias o principal agrupamento de negros ficava
situado no Burgo. Onde vivem ainda muitos de seus descendentes. Outro foi o
Buraco Quente e a Zona do Cemitério,situados próximo do centro atual da
cidade. Em Bento Gonçalves os negros se reuniram na favela chamada Divineia
, próxima da Cidade Alta
Em busca de trabalho alguns ex escravos entraram para a
Brigada Militar do Rio Grande do Sul , foi fundada em 1837, em plena
guerra civil Farroupilha , e que desde o seu inicio os
aceitou.Assim muitos deles entraram naquela corporação.Alguns foram
enviados para a Serra. A força era pequena e, portanto
pequeno também foi pequeno o número de brigadianos que se fixaram na
região.
Além de tropeiros e de soldados os antigos escravos se tornaram como
trabalhadores braçais, ajudaram na abertura de estradas e, mais tarde na
construção da estrada de ferro . Nas fotos do período da abertura da ferrovia
grande número de negros esta presente, da mesma maneira nos serviços públicos
do inicio do século XX.
A estrada de ferro prometida em 1875, nem o fim do Império, nem o inicio da
República resolveu o grave problema dos transportes das antigas colônias. O
projeto só saiu do papel na primeira década do século XX .A estrada de
ferro chegou a Caxias em 1910, em Bento Gonçalves em 1919. Muitos trabalhadores
negros chegaram à serra com a estrada de ferro assentando dormentes e
explodindo rochas e alguns nela passaram a residir.Sem esquecer que era
expressivo o número de negros que trabalhavam como empregados da ferrovia,tanto
na condição de guarda-chaves, como de condutores.
Nem todos os antigos escravos entraram para o mundo
do trabalho, alguns buscaram o da contravenção Cardoso(2007, p.60) ao analisar a
escravidão no vale do Cai ,no lugar chamado de Rincão do Cascalho relata a
ocorrência de um crime ,no qual um escravo
matou com um tiro um mascate italiano confundindo-o com o
negociante que pretendia assassinar,no caso dono da casa de
negocio.Tal ação revela que algumas vezes os escravos andavam armados e armavam
vinganças contra brancos que na eram relacionados diretamente a sua condição de
escravos.,tal condição deveria ser do conhecimento de seus proprietários
.Weimer
apresenta dados que revelam que as regiões de imigração alemã e italiana foram
as principais consumidoras do gado roubado de São Francisco de Paula, atividade
realizada por antigos escravos juntamente com homens livres. Revela
ainda que alemães participavam de forma ativa de negócios
escusos, tendo como centro em 3 Forquilhas. Muitos eram roubos
políticos, porém a maioria era de roubos comuns. Entre os roubos
políticos estão os realizados por José Pacheco Horn, Manoel Marques
Negrinho e outros na fazenda de Dona Bernardina Batista de Almeida Soares,
esposa de Felisberto B. de Almeida Soares da qual, foram roubadas 130 cabeças
de gado . (WEIMER,2008,p.168 ) O que revela a existência de capangas das
forças castilhistas nas fazendas, não como assalariados mas sem
salário fixo e presumível que locupletam-se das vacas gordas de seu patrão.
Havia quadrilhas especializadas em abigeatos que percorriam as colônias
vendendo gado roubado ,das quais ex escravos faziam parte delas faziam
parte também lusos e alemães
São freqüentes os nomes alemães entre os
participantes das quadrilhas. Além dos Gross, também foram indiciados
indivíduos que atendiam, por exemplo, por Burg,Hoffman,Shwartz e Horn. Alguns
tinham situação razoável para a sociedade de então.(Idem. 170)
No começo
do século XX não eram incomuns incidentes envolvendo negros e brancos , podem
ser encontrados jornais . Guerino Zugno entrevistado em 1955 por Azevedo
informou que: “os colonos não gostam dos negros por causa dos crimes de
homicídio,raptos de moças e emboscadas “(AZEVEDO,1994,p.162).
Mas não é
só no depoimento de Zugno que a contravenção se faz presente. O jornal A
Encrenca relata um crime ocorrido em Caxias 15 de outubro de 1914
Na manhã
de quarta feira última ,quando o senhor Angelo Muratori, na qualidade de
sub-intendente interino do 1º distrito,pretendia na rua Sinimbu,neste
cidade efetuar a prisão de um desconhecido indivíduo de cor mixta,sobre
quem pesava a suspeita de ter praticado furtos,foi pelo mesmo mortalmente
ferido com um tiro de pistola ,vindo a falecer.(Encrenca,1914,p2)
Outra
notícia citada por Azevedo no dia 22 de julho de 1915,relata um
crime ocorrido em Nova Vicenza . Segundo a nota um colono e um negro
haviam bebido juntos num bar com um negro,o colono deu
uma carona para ele em sua carreta; ao descer para examinar uma roda que
estava com um problema foi morto e roubado. Logo o negro foi preso.(AZEVEDO,
1994, p.327)
Um crime ocorrido em 7 de junho de 1933 , vitimou o industrial Orestes
Manfro. Ele era diretor do Lanifício São Pedro de Galópolis. Seu
assassino foi João de Deus Oliveira Filho,um mulato de 26 anos
natural de Bom Jesus,que morava na localidade há 8 meses.O fato ocupou as
manchetes dos jornais e comoveu os habitantes de Caxias. Grave é o motivo do
crime,ao que tudo indica Manfro teria se negado a contratar o
operário. Segundo a memória local a empresa não contratava negros .(Caxias
Jornal 1933 ,p1)
Diante do ocorrido não é possível descartar a hipótese que
a contravenção algumas vezes pode ter sido causada pelo preconceito. Nos dois
casos de crime relatos nos jornais parece haver indícios de motivos
raciais.O que leva a concluir que nem sempre era fácil para os negros
achar trabalho no mundo dos brancos.



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